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As
insignificâncias: Suprematismo e new wave spirals A mulher sobre a lua crescente O leão em riste Bloomsday O Córrego das Corujas |
Insignificâncias. Como será que elas se
tornam significativas?
Convivemos com uma enormidade de
informações, estamos carecas de saber disso. Imersos nelas, cada um seleciona o
que lhe é importante para sobreviver e para se divertir. Eu me divirto
escolhendo temas insignificantes para investigar. Para dizer a verdade, as vezes
parece que não escolho, fico obcecado. O único jeito de livrar-me do "encosto" é
escrever. Em 1983,
achei que o mundo tinha sido inundado por
formas geométricas. Será que os artífices da
publicidade, assim como combinam quais serão as cores da moda, combinam também
um estilo,
e escolheram para 1983 as linhas retas? O texto "A
estética New Wave e um tal de Suprematismo" foi escrito em
1985. Foi
um gostoso exercício de história da forma, um pretexto para
aprender história da arte. Mas seria possível que dizer
que "Alguns neurônios deste Homo Sapiens
associam modernidade com Abstração Geométrica"?
Reler anualmente algum pedaço do
Ulisses, para comemorar o Bloomsday , é só esnobismo? Quero
crer que não, que é apenas um episódio mais grave desse desvio de comportamento.
Afinal, o que fez Joyce
eleger como significativo um dia qualquer na vida de um medíocre
publicitário? Fazemos isso religiosamente, desde
1985.
Em meados dos anos 90
conheci e me apaixonei por uma
outra vertente da história da forma: a história da
paisagem, mais conhecida como geologia. Que enorme fonte de prazer!
Continuo aprendendo e divertindo-me muito, mas esse é um assunto
em que só especialistas escrevem. Só posso invejar os que
podem transformar a profissão em hobby.
Em 1997, em Recife, comecei a sentir-me perseguido por espirais. Toda igreja barroca que eu via estava coberta por espirais. Perceber isso foi parecido com a sensação de olhar as imagens dos livros chamados "Olho Mágico", lançados no fim dos anos 80: depois de olhar fixamente, por muitos segundos, uma imagem inicialmente indecifrável, de repente saltava à vista uma figura, e a vemos tridimensional. A partir do momento em que aprendi a apreciar as espirais no barroco, comecei a vê-las na midia dos anos 90. Mais que isso, passei a achar que havia algo mais que uma "moda". Mas qual seria o "significado" das espirais? Demorei para aceitar a explicação mais simples: são um símbolo de "crescimento" . Espirais são uma bela solução da natureza para as dificuldades do crescimento. Mas por que, naquele momento? Por que vem e vão, na história, como mostra a página "spirals" ? Essa página foi escrita em inglês, para avaliar se existia um público planetário interessado nessa maluquice. Parece que não.
Por volta de 2003, nova
imagem passa a brilhar, em
conseqüência do interesse pelo barroco: a
mulher com os pés sobre a lua. De novo a busca da
história da imagem. De novo hiper-presente mas em geral
não notada por nós, leigos. O melhor da aventura foi
descobrir que a padroeira do Brasil e da américa latina é
a Senhora do Apocalipse.
Em 2005, uma nova
insignificância assumiu
importância: a nanopolítica, no Córrego das
Corujas, a necessidade de fazer alguma coisa pelo bem comum, usando
as fracas ferramentas que podemos dispor. Mesmo que seja só
escrever sobre um vale de um córrego no meio da cidade, apenas
observar, descrever, buscar solidariedade e, quem sabe, limpá-lo
um pouquinho. Com isso, ajudar a limpar o Pinheiros. Que limpará
o Tietê. Afinal, pretendemos andar de barco no Pinheiros em 2020,
certo? A nanopolítica pode incluir a luta pelo retorno dos nomes
tradicionais das ruas do Vale das Corujas: a rua Natingui tem que
voltar a chamar-se Rua do Futuro, e a Diógenes Ribeiro de Lima
tem que voltar a ser a Estrada das Boiadas. A radicalização
da nanopolítica seria defender a descanalização do
córrego, na Frederico Hermann Jr. Mas vamos com calma.
Em 2007, nova insignificância está exigindo dedicação, de novo centrado no barroco: por que sofriam e com o que se divertiam os membros das irmandades religiosas, ao longo do século XVIII? Quase todo mundo "de bem", daquele tempo, era membro de alguma irmandade, coisa que custava dinheiro mas garantia visibilidade social em vida e garantia de salvação após a morte. Por que eles resolveram brigar com os padres, em meados do século?
Mas afinal, que atração exercem essas formas tão
insignificantes?
Será que existe o tal inconsciente coletivo? O inconsciente é uma coisa tão pessoal, tão íntima, tão escondida até de si mesmo - o consciente - que a idéia de um inconsciente coletivo parece um contra-senso.
Símbolos são imagens às quais são atribuídos certos significados, praticamente se convenciona atribuí-los. Por isso, não são, a rigor, parte do inconsciente coletivo, pois o significado foi atribuído conscientemente. Entretanto, C. Jung afirma que os símbolos sempre portam mais significados do que os que lhes são atribuídos.
A tese é que certas imagens portam um significado oculto, (inconsciente, portanto) transmitem uma idéia que não é explícita. Para que não fiquem dúvidas, não partilho com aqueles que acreditam no ocultismo - algo que é oculto para muitos, mas não para os poucos iluminados.. O que é interessante é que em ambos os casos - a abstração geométrica, as espirais, a mulher sobre a lua - as imagens atravessam a história, brilhando, fenecendo e ressurgindo tempos depois. Será possível descobrir, identificar, um significado comum que ressurge, ou será que cada época a reprocessa, carregando a mesma imagem com novos significados? É muito tentador associar a espiral dos anos 90 com a civilização internétic@ , representando um novo ciclo de crescimento. Surge aqui uma teoria: períodos de crescimento levam-nos a gostar de espirais. .
Um certo Carlo Ginzburg fala em método morfológico de investigação. Laura de Mello e Souza, na apresentação do livro dele "Mitos, Emblemas, Sinais", 1986", fala de uma "extraordinária meditação sobre as raízes de um paradigma epistemológico assentado no detalhe, naquilo que aparentemente não tem importância mas que, na verdade, é fundamental à explicação científica: "Deus está no detalhe", dizia Aby Warburg."
Entretanto, minha
experiência na
construção do doutorado me diz que enquanto eu não
tive uma "teoria", um modelo explicativo, eu não enxerguei o
detalhe microestrutural que sempre esteve lá. Ecoava em mim a
frase de um professor, Paulo Sérgio Pereira da Silva: a
explicação do fenômeno está lá na
microestrutura. Você tem que debruçar-se nela
até encontrá-lo. Mas precisei ter uma teoria, para
vê-lo.
Veremos.